terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A outra metade do ambiente: o homem


O leitor deve perceber alguns pontos em comum entre a “conscientização ambiental” e várias ditaduras: uma crise grave e unificadora; um consenso geral, ou pelo menos a escassez de falas contrárias; um organismo maior do qual o cidadão comum faz parte, e perante o qual só é significante para colaborar; restrições ao cidadão comum, como racionamento de energia. Há também o grande inimigo, e aqui o comunista do regime militar brasileiro ou o judeu do Nazismo é o próprio homem, ou pelo menos aquele que se opõe à viadagem ecofascista. Uma outra similaridade é o que discutirei aqui rapidamente: a desconsideração pelo indivíduo. Às vezes, em nome do bem do “todo”, que aqui é o planeta. Às vezes, é simples descaso. (Refaço a recomendação das páginas Alerta em Rede, Ecocídio e a seção Controle do Clima de A Espada do Espírito)

Li um caso uma vez na Folha Universal este ano (não consegui achar de novo), sobre uma empresa cuja poluição afeta os moradores da vizinhança com problemas respiratórios e um pó preto que suja as casas. Ora, se fuligem de chaminé e chumbo-tetraetila preocupassem as prefeituras há mais tempo por causarem doenças respiratórias nos seres humanos, as geleiras seriam salvas por conseqüência. (Isso foi uma ironia: as catástrofes climáticas são obra de armamento escalar, se você ler a respeito pelo menos fingindo que acredita, verá algo mais plausível do que fumaça dos Estados Unidos ou do Brasil provocando tempestades em países com mais barcos de pesca do que carros)

Na Itália, algumas empresas que anunciam destinação final ecologicamente adequada de lixo industrial cobram um preço bem mais baixo que as outras. Mas ao final, jogam o “produto” na zona rural da Itália, causando contaminação do solo e das águas e estragando também a vida de milhares de camponeses. Ah, as empresas são da Máfia.

Mas mais fácil que peitar a Máfia para salvar os camponeses italianos ou o planeta é fazer uma campanha “não jogue óleo no esgoto”. Fazendo um exame aprofundado, não vamos ver quase nada de mais. Quase nada de mais rede de esgoto em loteamentos existentes há 20 ou 30 anos, quase nada de mais esgoto em estações de tratamento... O óleo jogado no esgoto contamina os rios e impermeabiliza os lençóis freáticos. Por que é pra lá que ele vai. Deveríamos deixar de usar o banheiro também?

Uma pérola que peguei por acaso, lendo o Jornal Agora, de Divinópolis, de 15 de abril de 2011: vendedores ambulantes de Divinópolis estão sendo molestados e tendo suas mercadorias apreendidas por fiscais, como de costume. Só que os fiscais são da Secretaria do Meio Ambiente. Sem comentários.

Temos ainda o caso daquele (no duplo sentido) pobre cidadão que foi preso por tirar um pouco de casca de uma árvore para fazer um chá para a esposa doente.

Em Belo Horizonte, uma lei vigorando desde 18 de abril proíbe sacolas plásticas no comércio e impõe a venda de sacolas compostáveis, e algo assim pode se expandir para Minas Gerais inteira. Como podemos ver, enquanto esgotos correm no meio de várias ruas, a preservação do meio ambiente está mais preocupada em mexer com o nosso saco – literalmente.

Uma parábola que se espalhou pela internet diz que a Terra é uma vaca e os seres humanos são bernes que a infectam. Então (trecho da obra), “o candidato que falar sobre a saúde da vaca e o emagrecimento dos bernes, com toda certeza, perderá a eleição. Quando o que está em jogo é a saúde da vaca, não se pode confiar nos bernes”. Nem o fascismo chega a tanto!

Walter Nunes Braz Júnior

Nova Lima, 15 de maio de 2011

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